Jogador de Futebol, Dinheiro e Preconceito

Uma abordagem crítica sobre o lado financeiro do futebol

 Por Évio Gianni

Este post é contra o preconceito travestido de criticidade acerca do negócio futebol e os ganhos dos jogadores. Já falei sobre isso antes, mas volto ao assunto

Parte dos críticos não entende “lhufas” de futebol e outros apenas repetem o que ouviram de um professor, advogado, médico, síndico ou o que o quer o valha com um ar de “sabideza” iluminada

É comum vermos pessoas “conscientes”, em bares, restaurantes, elevadores, salas de reunião e transportes coletivos descarregarem uma saraivada de críticas sobre o valor dos salários dos jogadores.

Fala-se do “absurdo” fato de um jogador ganhar mais de um milhão para chutar uma bola; “só para chutar uma bola!”. Destaca-se que o médico ganha “Y”, o professor ganha “W”, o policial ganha “Z” que são profissões mais “importantes” que a de jogador.

Essa é uma falácia gasta e preconceituosa. 

Concordo plenamente que médicos, professores, policiais e várias outras profissões devam ganhar bem. Destas destaco apenas que os médicos já ganham muito bem (e muito).

A ideia de que o médico ganha mal é uma informação parcial e manipulada. Ocorre que alguns acham que ganhar 10 mil reais numa jornada inferior a 40 horas semanais é pouco. E sou plenamente de acordo com o que ganham os jogadores de futebol, aliás, acho que eles deveriam ganhar mais como categoria. Não que eu ache o salário do Neymar pequeno, eu explico…

Considero que a crítica nasce do nosso preconceito comum sobre a dicotomia criada entre “trabalho manual” e “trabalho intelectual“.

Desde a Grécia antiga, quando Sócrates convenceu a todos que o importante na vida era a “razão”, definimos que tudo o que for intelectual é valioso e tudo o que é manual é superficial e portanto, sem valor.

Dessa forma organizamos nossa sociedade acreditando que toda atividade física é de “menor valor”, indigna da “elite”, indigna de pessoas capazes e com formação universitária. Atividades físicas tornaram-se, na nossa cultura de origem escravista e acomodada, próprias das massas iletradas e escuras, que só poderiam contribuir com atividades simples, muitas delas que dependiam da força física, equiparadas a atividade de animais de carga em sua condição de “irracionalidade“.

Claramente acredito que o incômodo com o ganho dos jogadores provém daí. Como uma pessoa ganham um milhão para desempenhar uma atividade física se eu, que sou professor, e trabalho com algo muito mais valioso, que é o intelecto, ganho pouco? “ABSURDO!!!?

Será? 

Ser jogador de futebol no Brasil é uma profissão de risco a curto, médio e longo prazo. Começa-se cedo, por volta dos 12 anos, treina-se muito, o que acaba inviabilizando o estudo formal e a consequente falta de capacitação profissional para qualquer outra função. A profissionalização no futebol, na prática, ocorre por volta dos 16 anos, quando inicia-se uma vida de altos e baixos e de muito trabalho.

A carreira acaba cedo. Por volta dos 34 anos de idade a maioria dos jogadores está aposentada. São no máximo 20 anos de atividade profissional. quando dá certo, ótimo, quando não, a pessoa está fadada a ter uma vida de dificuldades.

O Blog da Oficina de Jornalismo da Faculdade CCAA apresenta que: “Segundo a CBF, dos 14.876 mil atletas registrados em 2010, quase 9.000 ganham até um salário mínimo, ou seja, cerca de 60% dos jogadores vivem com menos de R$600 mensais.

O ranking ainda contabiliza, aproximadamente, 9% de jogadores que recebem salários acima de R$2.500 e apenas 4% que recebem acima dos R$10 mil mensais – salário que, ainda assim, estaria longe dos que recebem as estrelas do futebol brasileiro. Estima-se que somente 1% dos jogadores brasileiros receba mais de R$100 mil por mês, dentro e fora do país.”

Grandes salários são para poucos jogadores.

Os melhores salários no Brasil estão nas equipes da série A e B do Campeonato Brasileiro. São 40 equipes, 20 em cada divisão.

Levando em conta que cada clube tem em seu elenco aproximadamente 30 jogadores, mesmo que parte deles seja oriundo do time juniores (que ganha pouco ainda), isso significa que o mercado da bola no Brasil resume-se a no máximo 1200 vagas distribuídas de forma irregular pelas regiões do país.

O jogador mediano assina contratos curtos, tem seus direitos trabalhistas desrespeitados, e passam uma parte do ano desempregados.

Como se isso não bastasse o trabalhador do futebol tem de conviver com as temidas lesões. Quando se tem contrato vigente o mal é menor, quando não corre-se o risco de encerrar a carreira e ficar à mercê da caridade alheia ou do amparo familiar.

Ainda assim é um meio de ascensão social maravilhoso.

E para os virtuoses da bola, gênios como Neymar, Cristiano Ronaldo e Messi, é justo e merecido que recebam salários altos. Porque é justo que num negócio em que se movimentam valores na casa dos milhões a “estrela da festa” ganhe proporcional.

O orçamento anual dos grandes clubes é superior aos 60 milhões de reais. Para alguns, é superior a 100 milhões por ano. Isso significa que a circulação de recurso no clube é maior que 10 milhões por mês.

É justo que nesse patamar o clube tenha uma folha salarial do departamento de futebol por volta dos 3 milhões. Para um incomparável Neymar, é justo ganhar 1,5 milhão, porque ele gera mais que isso ao clube.

Parece-me que ninguém falaria mal de um profissional intelectual que ganhasse 300 mil numa empresa que ele ajuda a obter lucros acima de 3 milhões de reais.

O futebol é um negócio e o valor do salário dos jogadores deve ser compatível com a movimentação financeira que eles promovem. Criticar seus ganhos porque vieram de favelas, porque são negros, porque fazem um “trabalho braçal” é puro PRECONCEITO.

E o que o Neymar faz quase ninguém no planeta faz… isso tem um valor inestimável.

E se toda atividade física for subvalorizada, o que faremos com a arte? A que nível legaremos os escultores e pintores? De que valerá um Rodin? Alguém supõe que ele tenha feito sua obra maravilhosa com a força da mente? Quanto valerá um Monet? Um Van Gogh? Alguns deles nunca frequentaram os bancos das escolas de belas artes… alguns não sabiam escrever e outros eram feios, escuros e sujos… o “trabalho braçal” deles não vale nada?

Repito: os jogadores como categoria devem ganhar melhor. Os grandes astros ganham o justo. E os pretensos “intelectuais críticos” que tentam desmerecer o trabalho dos jogadores são tolos preconceituosos.

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