Como a França se tornou uma bicampeã mundial em 20 anos

A FIFA permite que atletas joguem por qualquer nação com a qual possuam uma conexão clara, incluindo o país de origem dos pais ou avós de um jogador.

Na Copa do Mundo da Rússia, 82 jogadores atuaram por países nos quais não nasceram. A França, vencedora do torneio, foi a maior exportadora deste mundial. Ao todo, foram 50 jogadores nascidos no território francês, destes, 29 defenderam outras seleções. O Brasil ficou em segundo lugar com 28 no total, mas apenas 5 atuaram por outra nação.

A França teve a maioria dos jogadores e treinadores nativos das últimas quatro Copas e seu domínio vem aumentado ano após ano.

Mas, o que há de tão especial nos franceses?

No final da Segunda Guerra, grande parte da França foi destruída. O governo começou a recrutar trabalhadores do sul e leste europeu, assim como das colônias do norte da África para reconstruir o país durante o final das décadas de 1940 e 1950. Durante esse período, a França trouxe mais imigrantes que qualquer outro país europeu. Cerca de 2,7 milhões pessoas chegaram ao território francês. No mesmo período, a Alemanha recebeu 2,3 milhões.

Na década de 1960 e início dos anos 70, a economia francesa cresceu rapidamente e uma escassez de mão de obra levou a outra onda de imigrantes –  com ainda mais chegadas de colônias francesas em toda África e Caribe. Muitos deles se instalaram em grandes conjuntos habitacionais fora das principais cidades.

Ao mesmo tempo, a França estava também em uma crise esportiva, especialmente a seleção nacional de futebol.

Entre 1960 e 1974, a França não conseguiu se classificar para três Copas do Mundo e três campeonatos europeus. A federação francesa decidiu que a maneira de modificar esse cenário, seria criar uma estrutura nacional para desenvolvimento de talentos, criando assim um dos primeiros sistemas de academia de futebol da Europa.

Em 1972, um centro de treinamento foi inaugurado em Vichy, e quatro anos depois, a Federação trabalhou com os principais clubes de futebol franceses para criar uma rede mais ampla de academias e recrutar e treinar jovens locais.

Em 1988, o centro nacional de treinamento mudou-se para um subúrbio arborizado ao sul de Paris chamado Clairefontaine. No inicio dos anos 1990, este sistema de futebol francês era um dos melhores do mundo – desenvolvendo jogadores talentosos por toda a Europa – e o sistema entregou resultados.

Em 1998, veio o primeiro título mundial. Comandado por Zidane, os blues massacram o Brasil na final e levantaram a Copa do Mundo dentro de casa. A conquista pareceu ser um avanço para o multiculturalismo francês, isso porque vários jogadores do elenco eram imigrantes ou filhos de imigrantes que foram para a França no século 20. Aquele time ficou como conhecido como “Black, Blanc, Beur”,que significa: “Preto, Branco e Árabe” – uma referência às três cores da bandeira francesa.

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O time campeão de 1998 e o auge do Black, Blanc, Beur

Entretanto, nem todos apoiaram a diversidade, particularmente políticos nacionalistas como Jean-Marie Le Pen, que chegou a declarar que achava os jogadores artificiais.

“Eu acho um pouco artificial esses jogadores virem do exterior e batizá-los como o time francês. Notei que os jogadores de outras seleções entoavam seu hino nacional com muita emoção, enquanto que a maioria dos jogadores da seleção francesa não cantam, ou visivelmente, não sabem a letra.”

Apesar das críticas racistas, jogadores de famílias imigrantes continuaram a fazer mais e mais parte dos melhores jogadores da seleção, e muitos vem de um lugar em particular.

Trinta e oito porcento dos imigrantes da França se instalam em Paris. A maioria acaba ficando em áreas conhecidas como banlieues. A palavra em francês significa literalmente “subúrbio” , mas também pode ser aplicada para um gueto dominado por imigrantes.

Ao longo dos anos, estas áreas tem sofrido com o alto índice de desemprego, crime e pobreza. No entanto, os banlieues continuam produzindo jogadores de futebol muito talentosos. Isso porque é quando o histórico de imigração francês se encontra com o futebol, e é por isso que a cidade é a número um no mundo na produção de bons jogadores para o futebol.

Desde 2002, o número de jogadores parisienses em Copas do Mundo continuou aumentando. De todos os jogadores franceses no mundial de 2018 (50), 16 nasceram ou cresceram na grande Paris. O elenco francês campeão na Rússia carimbou oito nomes oriundos de banlieues, todos filhos de imigrantes: Kante, Areola, Matuidi, Pogba, Nzonzi, Mendy, Kimpembe e Mbappé. A estrela de 19 anos que brilhou no mundial, é filho de uma argelina com um camaronês e nasceu no subúrbio parisiense de Bondy e foi treinado pelo sistema francês de Clairefontaine.

Mas jogadores parisienses não jogam apenas pela França. Com o passar do anos, as regras de qualificação da FIFA permitiram que eles jogassem em países como Costa do Marfim, Marrocos, Argélia, Portugal, Camarões e Togo. Quatro jogadores de Senegal, que disputaram o mundial na Rússia, nasceram nos banlieues, são eles: Niang, Sow, Sabaly e N’Diaye. Benatia, capitão do Marrocos e zagueiro da Juventus e Raphaël Guerreiro, lateral-esquerdo da seleção portuguesa e do Borussia Dortmund, são outros exemplos de jogadores da produção francesa de bons jogadores.

Isso é o que é mais especial sobre o futebol francês, a combinação de um sistema acadêmico estabelecido e a sua história única de imigração que está produzindo talentos para a França e para o resto do mundo.

Fontes: Vox, El País

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